sábado, 4 de novembro de 2017

O pó da foice




Nascem-me das Entranhas
Vontades
Fortes e estranhas:
Sangrar livremente
Ser a Semente
De próprio Sonho
Num chão sem dono.

Eu sei que me vês,
Eu que te vejo;
Maior do que me sei
Mais ampla do que me desejo.

Que me descarnas a polpa da pele
Retornando-me ao infinito potencial:
do recomeço, início
A cada vez.

A pura semente despida
do fruto que foi
Quebrando, Geminando

Sou o pó da tua foice!
E sei:
Que o que de mim cortas
É a poda necessária ao crescimento
da colheita.

Amadurece-me e transforma-me;
Não posso senão pertencer-te:
Mãe Floresta Verde Nascente
Pai Verde Carvalho Veado
Mãe de todas as Fontes
Menino, Homem, Mago

Mexe-me no teu caldo
Cozendo, evaporando, apurando

Entorna-me depois
Sobre o teu Sagrado chão
Seja eu Água que a tudo nutre por onde passa




Iris Lican, Outubro 2017
Fotografia de Carolina Maria (Mandrágora) com Lila Nuit e Iris Lican


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

EuFémea ou a Via Selvagem de Parir-se

I- A Mãe
Irei parir
Como os animais
Só,
Na orla iluminada da floresta
Meus Ais ressoarão
nas raízes
além do solo
E trarão trovões flamejantes
O sangue jorrará
alimentando aTerra
e o meu filho
será Eterno!
Pois Eu Sou
A essência
Todas as fêmeas
desde Sempre!

II- Fecundidade
Como a Seiva
das árvores
Fermentada
e a sede
Que sempre pede
e sempre dá
as minhas mãos
Já não são mãos
São Infinito
E o coração
O Universo palpitante
Não caibo
em mim,
Porque somente eu não sou.
Ser
Fecundidade

Foto: Mizé Jacinto

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O HÁBITO FAZ O MONGE


Toda a nossa Terra arde.
Da casa dos meus pais já se vê o fogo. Da casa dos pais, amigos, familiares de quase todos nós já se sentiram as chamas. Se não desta vez, de alguma outra.
Não é normal, muito menos natural.
O meu Pai, natural de Oleiros, engenheiro agrónomo, explica claramente: sempre aqui houve fogo, desde que eu era miúdo. Combatemos muitos sem que cá viesse ninguém e nunca tomavam estas proporções. Eram outras árvores e outra força do povo.
Temos a banalização do fogo a cada Verão, como se fosse inevitável.
Temos quem continue a sua vida, achando mal sem dar mais do que a sua opinião.
Porque é que os incêndios são um assunto que pertence a tod@s nós?
Porque sem Terra saudável a nossa qualidade de vida enfraquece gravemente e a nossa sobrevivência como espécie fica ameaçada. Somos parte desta Terra viva que arde e ela fala-nos de um desequilíbrio para o qual todos contribuímos activamente, todos os dias: o consumo. Neste caso específico, de papel.
Poderia tratar-se de outro, são muitos os hábitos viciosos que desenvolvemos e que nos escravizam e retiram muito mais do que nos dão ou nutrem.

Tenho reflectido muito sobre o adágio o Hábito faz o Monge, nas suas múltiplas dimensões:
Se o hábito faz o monge, os gestos adquiridos por habituação tornam-se uma roupa segunda-pele que também nos define e apresenta aos demais.
Assim, precisamos de trocar esta roupagem , redefinir os nossos hábitos e repôr neste adágio a sua verdade essencial: a prática (disciplina) faz o praticante e assim do banal se faz Sagrado.
A prática do equilíbrio e sustentabilidade é a única sustentação possível de qualquer relação que possamos ter, desenvolver e manter.

Por aqui, o nosso compromisso é com cada fungo, bactéria, mineral, planta, animal, pessoa que tenha sofrido dano nestes fogos. Sem excepção. É também com quem os ateou, com quem tira partido financeiro deles, com a criação constante de empatia, comunicação, alternativas saudáveis que possam fazer beneficiar a todos. Utopia? Não, trabalho laborioso de empenho, dedicação, tolerância, compromisso, integridade. De dentro para fora como de fora para dentro. Cheio de imperfeições e por isso mesmo tão mais cheio do mérito de tentar, de cair para aprender a caminhar.
É um hábito duro enquanto disciplina, estamos longe de ser monges. Mas chegará o dia, porque a perseverança nutre todos os que ardem no fogo imperecível da compaixão e do equilíbrio.

E na verdade, todos sabemos que não há outro caminho.
Há na nossa cultura portuguesa colectiva o «Eles», aqueles que se espera que saibam, façam por nós, resolvam ou sejam castigados; ou até tudo junto. Essa mítica entidade sem rosto retira a nossa soberania individual e comunitária, isola-nos no medo, indiferença e culpabilização do outro.
Em vez de Eles, somos NÓS. Cada um de nós, sem excepção.
É a hora da sustentabilidade interior, comunitária (social), ecológica, se materializar em escolhas pro-activas que fazemos todos os dias através das mais pequenas acções.

Hoje sinto também a urgência de um apelo que não diz respeito somente a Pedrógão, mas a todo o país.
Sinto a urgência de falar do que acontece, quando nos montes ardidos, deixam de haver árvores que nas suas raízes conservem a água da chuva: a cinza este Inverno deslizará com a acção das chuvas para os vales. Toneladas de cinzas. As aldeias poderão sofrer cheias tão devastadoras como foram os incêndios, carregadas de cinza molhada e lamacenta. A Terra ardida não tem, sem vida vegetal variada, capacidade de absorver e reter a água. Esta cinza corre o grave e sério risco de se deslocar em rios densos e negros.
Os cursos de água levarão também as cinzas até ao mar, onde a sua acção corrosiva se adensará sobre a vida marinha.
Os lençóis freáticos em Pedrógão, por exemplo, já falam do desastre tremendo que acontece no subsolo: já não há água potável em muitos locais, é negra ao abrir a torneira.
Se os lençóis freáticos ficam ameaçados é a água potável de todos nós que está em risco, mesmo que não na totalidade (por enquanto).
Tudo na Natureza funciona em rede, os lençóis comunicam e interligam-se entre si, não são estanques.
Esta é uma responsabilidade humana e ecológica de todos nós. A reflorestação autóctone não é uma das alternativas: é a única possibilidade de sobrevivência.

A rede da vida, no bosque como nas pequenas comunidades, precisa de ser refeita.
O melhor de um tem que ser o melhor de todos e de cada um. E isso é outra vez, uma escolha e reflexão diária: hábito vicioso ou prática construtiva? Onde colocamos a nossa energia, vontade, acção?
E como podemos construir a cada dia uma melhor relação connosco mesmos, uma auto-estima mais plena, se soubermos que as nossas opções podem não ser as mais rápidas e fáceis no imediato, mas são sem dúvida as melhores para nós e para os outros?

Sejamos como o Salmão: peixe Sagrado na cultura celta e nas culturas indígenas norte americanas. O mesmo salmão faz toda a corrente atlântica, atravessando Portugal, Irlanda, Escócia, Estados Unidos.
Na coragem tremenda de remar contra a maré pela preservação da continuidade da vida. É o único peixe que o faz, e faz em tribo.
Sejamos como o carvalho, que se ergue da bolota com tempo, perseverança, soberania.
Tenhamos a sua resiliência e capacidade de junt@s remar em direcções desafiantes, mas tão melhores.
Não há momento como o Agora e urge começar.

Algumas ideias de acção:
- cada vez que quer fazer uma crítica pense de que forma pode envolver-se e usar essa energia para fazer melhor, apropriando-se da sua autonomia de acção.
- Não anestesie o seu sentir, só sentindo poderá parir a realidade em que quer viver, conscientemente. Pergunte-se como usar a força das suas emoções para fazer mais e melhor, por si e pelos outros e faça. Não tema errar, só se aprende fazendo e só se faz tentando.
- Envolva-se em apoio humanitário e ecológico, na escala do que for possível para o seu tempo e capacidades. Evite dar dinheiro, dê trabalho, dê tempo, assim saberá mais o que é preciso e delegará menos a sua responsabilidade tendo a certeza de que o seu apoio chega onde é necessário, da melhor maneira. Se o seu apoio estiver a ser dado a instituições com gestão ineficiente expresse educadamente o seu parecer e dê alternativas construtivas, a partir de valorizar os pontos fortes existentes tanto quanto o que pode ser melhorado.
- Faça destas actividades parte da sua vida familiar: piqueniques na Natureza para reflorestar, colecta de roupas, livros, brinquedos e alimentos em alguns momentos do ano para distribuir a quem precisa. Eduque ao não consumismo: comprar não é necessário para ser feliz: que outras alternativas de contacto e conexão podemos ter, proporcionar e cultivar? Assim, rompemos a escala do consumismo, da dependência e da exploração. Inspirando crianças a trabalhar por gosto e não pela obrigação de suprir uma cadeia de falsas necessidades à vida na sua base essencial.
- Não sabe como? Peça apoio a pessoas e instituições em quem confie. Aprenda e espalhe a palavra acção. Há dezenas de bons projectos, não será difícil encontrar um que lhe faça sentido. Se fôr, procure mais ou crie o seu com um grupo de pessoas com visões afins.
- Não acredita? Renove a fé e faça, afinal de contas, não tem nada a perder ;)
- reduzir ao máximo o consumo de papel : papel higiénico, escolher guardanapos de pano em vez de papel, transformar a roupa velha em panos de limpeza e reduzir o uso de papel de cozinha, reutilizar ao máximo sacos de papel (sobretudo nas compras de roupa, que são aquelas que quase ninguém faz com o seu próprio saco), usar malas grandes que permitam levar coisas dentro sem precisar de sacos
- reduzir o consumo de plástico
- reciclar embalagens
- consumir o mínimo possível de alimentos embalados
- outras ideias boas que tenha: pratique e partilhe (inclusive comigo, que eu também quero saber mais para fazer melhor)
- Sabe aqueles canteiros abandonados na sua rua, no seu trabalho, na escola dos seus filhos? Cuide-os com um grupo de vizinhos. Plante espécies autóctones, comestíveis e medicinais, quer de plantas herbáceas, quer de árvores. Sabia que em Paris há um projecto de pomares na rua, para que ninguém passe fome? Plantado por cidadãos.

- Seja a mudança que quer ver no mundo. Lembrando sempre que cada caminho se faz passo a passo.


« Se acredita que você é pequeno demais para fazer diferença é porque nunca tentou dormir num quarto com uma melga.»
Anita Roddick
 

Veja no meu facebook, no post com este título e foto, links de organizações que pode apoiar.

sábado, 15 de julho de 2017

FECHA-SE UMA PORTA, ABRE-SE UM CAMINHO

Debaixo da Ameixoeira celebrou-se a chegada de uma criança.
O seu primeiro ano.
As bênçãos para a sua chegada vieram em sonhos, teci as visões em palavras o melhor que pude. Como de costume, foram as palavras que me teceram.
Bem sei que o baptismo é milenarmente anterior ao Cristianismo, sendo a apresentação da criança à sua comunidade tribo, recebendo a bênção das Águas da Grande Mãe, que a conduzirão, como uma gota, até ao rio e como um rio até ao Mar. Fluindo sempre no amparo da Terra que sustém as águas e as conduz no seu fluir. Porque a fluidez só existe na confiança e é a maior prática de estabilidade.
Agora esta cerimónia pertence a todas as religiões, tal como tudo pertence, na verdade, a todos. Porque o Amor é a linguagem comum que precisa de ser resgatada pela aceitação e entendimento.
Há que tecer este caminho comum, cada uma e cada um com uma linha de única e ímpar espessura e tom, sendo o bem comum o bem de todos e cada um, inclusivamente.
Somos tecelães, somos fio, somos tear.

Foram 8 dias de espaço-tempo entre a Terra devastada, vestida de cinza e despida de vida de Pedrógão.
A bênção da Criança estava agendada há muito. A morte desta área vasta de Terra não.
Mas a Vida surpreende-nos no seu saber.
Da dor se compõe Amor sem que se saiba como ou espere.
Não consegui escrever nem elaborar pensamentos coerentes durante este tempo.
Fiquei suspensa, nas horas passadas a visitar as aldeias queimadas, as pessoas doridas, as árvores negras erguendo-se na dignidade de serem vistas para que a consciência se eleve.
Eu e a Lila Nuit ficámos horas em silêncio no carro.
Ouvimos o silêncio fúnebre e as vozes das gentes.
Vimos a desorganização, as mãos incansáveis, os interesses conflituosos de chefias cuja motivação é pouco ou nada clara. Vimos os armazéns com excedentes acumulados e soubemos das pessoas que não recebiam o necessário e dos locais onde as coisas continuavam a não chegar.
As aldeias desertas, os voluntários desorientados, as prioridades confusas, a vontade de fazer melhor.
A humildade de pedir pouco de quem mais precisa e a exigência de quem muito pede e tira partido da generosidade e desventura alheia.
Como sempre, tudo em simultâneo e nada linear.

Eu sou empática. Sinto a dor dos outros de forma tão total que se torna minha. Fica-me por dentro, adensa-se em mim.
Senti a dor e o caos, humano como ecológico.
Senti a densidade da paralisia: afinal, sabemos que aqui neste recanto do mundo a Oeste somos generosos, voluntariosos, hipócritas, egoístas. Que tudo isto nos rodeia e nos pede um novo trabalho interior de honestidade, de um poder que vem do mérito e do saber fazer em conjunto, que a cada dia se aprimora no aprender com o outro, na relação.
Fomos descobrindo telefones, indo aqui e ali, enviando mensagens por todas as vias possíveis. Mas as linhas estão cortadas, muitas comunicações não chegam.

Sonhei de noite e de dia com uma dor profunda e abismal.
Senti que talvez afinal eu não pudesse ajudar como pensava. Que o muro era demasiado firme.
Como uma criança olhava este impedimento e sentia-o. E trazia este luto medicinal sob a forma de dor cortante. Chorava de repente ao olhar para o jardim, para o meu Filho, nos braços do meu Marido, ao ouvir a voz da minha Mãe, a escutar os pássaros, ouvindo o ronronar dos gatos.
Tremia de vergonha por dentro, pelo sofrimento que insistimos em tecer. E que começa nas relações diárias de cada um(a): na pessoa que se insulta no trânsito, no comentário que diminui o outro na net, no direito que nos damos de valer mais ou menos, na forma fácil como descartamos relações, afectos, pessoas, coisas.
Atravessamos uma crise de valores, cuja dimensão financeira é apenas um pequeno espelho. São valores humanos e eco sistémicos de base os que nos faltam e sem eles nada pode crescer ou manter-se em estrutura.
Há uma relação com a Terra Viva que foi perdida, em que a mesma foi e é objectivada. Re-estabelecer a consciência material e espiritual do elo de inter-dependência, perceber que tudo é necessário em proporções equilibradas, entender que não há supremacia do humano sobre o natural, porque o humano é parte do natural. Em cada célula somos Natureza e isso faz de nós iguais entre iguais neste planeta e universo.
Como cuidar de quem perdeu o essencial se a cada dia descuidamos o essencial, precisamente?
Como ia eu conseguir abençoar uma Criança e família, cuja gestação acompanhei como doula, se este espaço estava tão aberto em mim?
Mas os sonhos tremendos não desistiram. Com a mesma qualidade de vórtex do negro vinha o céu azul profundo, e vinham as bênçãos e as vozes.

Eu escolhi ser Mulher Medicina.
Já de pequenina tratava Deus por tu e lhe falava, reestruturava orações para incluírem animais, plantas, pessoas. Quis ser Bruxa desde os três anos, antes de saber sequer o que isso era. E descansei a minha Mãe, quero ser daquelas boas, que ajudam, acho que não conheces, mas eu depois mostro.
E vi-me também nesta responsabilidade que sempre soube: ser artista, terapeuta, mulher medicina é Ser para servir, para mediar, para cuidar a comunicação, mesmo a que não se faz por palavras ou por linguagens inteligíveis, mesmo que eu não saiba sequer como. Sem me deixar encantar por mim mesma, neste vazio pleno de sentir e ouvir o outro como gostaria de ser ouvida e dar na medida e o que gostaria de receber. Só sentindo posso saber, mas este sentir também pede espaço de contenção para poder existir em clareza.

Lembrei de novo a inteligência selvagem da serpente: que sabe que só tem duas opções, crescer ou morrer quando a velha pele já a estreita. Ou se deixa estrangular ou cresce, e para crescer abraça o desconhecido e a mais profunda vulnerabilidade. Quarenta dias sem pele firme e sem pele ocular, sem poder ver nem expor-se, sentindo tudo e desse sentir tão total reconstruindo a sua estrutura tão flexível como estável.

E assim, escrevi as bênçãos. Cuidei o meu Filho que nunca desiste de viver plenamente e que só me dizia nestes dias que eu estava triste sem ele saber porquê, mas que ele entendia e ouvia as plantas, animais e pessoas a chorar e estava tudo bem porque ele tinha tanta ternura para me dar.
Recebi a permissão plena que eu não dava a mim mesma, do meu Companheiro para a totalidade de um luto sem identidade pessoal definida.
Entrei em karma yoga e em reclusão dentro de mim.
Ajudei a Lila Nuit na cozinha e recebi o seu cuidar que é um abraço tão profundo como chegar a casa.

Soube que tudo faz parte, que tudo é preciso e precisoso e que a Grande Mãe Negra nos leva no seu colo, mesmo nos dias mais desafiantes. Doí o crescimento dos dentes como doí o crescimento da Alma.
No colo sagrado deste Amor, veio a redenção de abençoar a família de sobrenome Carvalho debaixo da Ameixoeira de seu jardim, honrando ancestrais, presentes e descendentes e todas as nossas relações.
Com pessoas de todos os lugares, espiritualidades e visões do mundo unidas para celebrar o momento, dando o melhor e mais puro de si.
Eu que pedi que voltassem os bosques Sagrados, a comunhão com a Terra Mãe, a igualdade total entre tudo e todos, as preces às árvores enquanto guias avós espirituais.
Aqui estava eu, uma família Maravilhosa, Madrinhas de uma doçura ímpar, crianças saltando nos ramos.
É possível. A bênção nunca nos abandona e dá-se através de cada um de nós, na relação que em verdade, respeito e gentileza se cria.
É sempre possível Ser e Sonhar além de si mesmo para se renascer mais amplo.

Voltaremos a Pedrógão na próxima semana, entregaremos refeições e bens pessoalmente aos habitantes afectados. Apoiamos já e comprometemo-nos a dar a conhecer iniciativas de reflorestação autóctone.
Em Gratidão

RELEMBRAR O ESSENCIAL ACADA DIA

Que jamais , em tempo algum, o teu coração acalente ódio
Que o canto da maturidade jamais asfixie e sempre dê expressão à tua criança interior
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro

Que as perdas no teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo
Que os teus momentos de Amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo

Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da Vida a cada amanhecer

Que cada dia seja um recomeço, onde a tua alma dance na Luz
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas da tua passagem em cada coração

Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins

Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a Alma é grande e generosa

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno

Que um suave acalento te acompanhe, na Terra ou no Espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome
Aquele Amor que não se explica, só se sente

Que esse Amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu Ser
Que este Amor transforme os teus dramas em Luz, a tua tristeza em celebração e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, te esqueças da Presença que está em ti e todos os Seres
E que a honres e celebres a cada gesto, de cada momento
Que o teu viver seja Pleno, no abraço da pedra, da planta, do animal, da família humana, da estrela em alto céu

Que a Paz sempre te acompanhe e que possas semeá-la onde quer que vás
Assim seja com todos nós e todos os Seres, em todos os tempos e espaços
Assim É

Oração Celta, adaptada por Iris Lican

Sobre a Gratidão

Estes dias, eu e a Lila Nuit temos sido abraçadas por agradecimentos profundos, sob a forma de palavras, gestos, doações.
Os elogios que nos chegam vêm da parte de pessoas absolutamente incríveis: pessoas que erguem projectos humanitários de pequena mas profunda escala, que iniciaram escolas, que se empenham em dar o mais que podem desde o lugar onde estão.
Não há gestos pequenos no dar.
Há apenas dar, na medida da vida que cada um(a) segura em si.
Há também a honestidade de querer envolver-se na escala da sua possibilidade, que é tão melhor do que deixar passar e não fazer nada ou esperar que alguém faça o que nos desresponsabilizamos de fazer.
É o pequeno gesto da grande mudança de paradigma : todos somos o tecido social em que vivemos. Não há nós nem eles. Somos todos uma teia interdependente onde a liberdade é vivida em conexão.
O Bosque selvagem ensina-nos isso: a urtiga não é menos importante do que o carvalho, nem a papoila menos importante do que a orquídea. Fazem parte de um todo íntegro, com acções complementares, todas indispensáveis à preservação da Vida, qual órgãos de um grande e consciente corpo.
Cada uma sendo, dando-se na imensurável medida de valor da sua própria Natureza, sem jamais ignorar o seu propósito espontâneo e orgânico.
Agradeço muito a quem contribui e contribuiu, agradeço a quem oferece tempo, energia, orações, bens. Agradeço a quem não se deixa levar pelo fluxo da falsa urgência que a vida social de hoje nos empurra a ter, a quem escolhe mover a densidade da preguiça, crítica, apatia e transforma-la em lavoura de um baldio descuidado que pode finalmente ser sementeira. Agradeço a quem se dá o tempo de ser a dádiva de si e dos outros, em cada pequenino passo do gesto de cada dia.

Ontem fez 9 anos que a minha última avó beirã partiu. Como uma oliveira, ela era pequenina e larga. A Avó Celeste era varina em Lisboa desde os vinte anos. Acordava de madrugada para ir para a lota e percorria a cidade de cesta à cabeça. Sempre foi financeiramente independente e pioneira, sem ideologia intencional, para o seu tempo. Não era uma avó idílica nem doce mas tinha uma vontade indomável e uma generosidade pura: deu pelo menos tanto peixe quanto o que vendeu num tempo em que as mesas eram bem mais magras do que as de hoje.
Depois do peixe, já na última idade, vendeu roupa. E cuidou de agasalhar muita gente. Sempre construiu com uma mão abundância e com a outra generosidade ( esta última vista com muitas críticas ao seu bom, bravo e bravio coração). Nunca guardou um livro de dívidas. Algumas, fez questão de esquecer. Teve dias duros e dias serenos, mas sua pequena casa sempre ofereceu de braços abertos guarida e comida a quem quisesse entrar. Nunca teve qualquer dificuldade em traçar limites, zangava-se alto, comovia-se por Amor.
Todas as manhãs, falava com as plantas em longas conversas enquanto bebia café com leite que perfumava toda a casa. Tinha tantas plantas que enfeitava a escada do prédio e os canteiros do bairro. As suas plantas eram as mais viçosas. Ela fazia vicejar o que ninguém fazia brotar sequer.
A Avó Celeste ensinou-me pelo exemplo que podemos ser maiores do que as nossas vidas e tirar partido daquilo que parecem ser qualidades contrárias.
Ensinou-me que dançamos em rede, ora batendo com os pés no chão do despertar ora afagando, ora tudo o que existe entre estes espaços.

Eu é que agradeço, na verdade: Agradeço a confiança depositada em mim por tant@s de vós, agradeço a possibilidade de ter estabilidade para apoiar, agradeço por ter família de sangue e coração, de todas as espécies. Agradeço ser parte deste mistério que é a Vida e ter a benção de poder repôr, porque para dar é preciso receber. E é do tanto que me dão que eu posso dar-me.
Com Gratidão profunda a quem faz a peregrinação da jornada.

DOAR(-SE)




Falámos com os bombeiros de Pedrógão hoje.
Perguntei ao Senhor que me atendeu o que era necessário. Respondeu-me com a voz dorida: precisamos de tudo minha Senhora, rigorosamente tudo.
Só não temos como vir buscar e a maior parte das corporações de outros locais já cá não vem trazer.
Expliquei-lhe que nós iríamos, e que iriamos ligar regularmente. Expliquei-lhe que sou descendente da Pampilhosa da Serra, que conheço bem o Inverno e que receio como vai ser quando outras notícias entrarem écrans adentro nas nossas casas e vidas e nos esquecermos deste fogo, entre a rapidez das tarefas. E nas noites longas a Beira faça sentir o seu cortante e demorado frio.
Ele disse-me que esse também era o medo dele, que faltassem cobertores e agasalhos. Que agora é tudo de Verão mas o Inverno há-de chegar.
Agradeci-lhe muito, disse-lhe que lamentava muito as críticas que recebiam.
Ele comoveu-se e respondeu:
- A Senhora nem imagina, ninguém pode imaginar o que isto é. Deixei arder a minha casa para ir salvar a dos outros, podíamos ter morrido e ninguém agradece.
Senti as lágrimas rolarem dos meus olhos e vi a Lila Nuit, que me escutava ao lado, encher os olhos de lágrimas também.
E renovei o meu agradecimento:
- Podia ter sido connosco, ninguém está nunca a salvo. Agradeço por colocar em risco a sua vida por quem precisa. Agradeço muito.
Do outro lado, o Senhor Bombeiro chorou, mandou-me beijinhos e tudo. Agradeceu-me quase mais do que eu a ele.
Julgar é mesmo o oposto de ajudar.
Como seria se cada um de nós desse exactamente o que gostaria de receber, nesta situação como em todas nas nossas vidas? A mesma escuta, empatia e compreensão, e na mesma medida, do que buscamos receber?
Como seria encontrar o espaço interior da dádiva, da possibilidade e repôr em vez de retirar o que é mais necessário em nós, nos outros e nas circunstâncias?
A cada passo deste caminho sinto e sei que o mais essencial é a prática da compaixão radical, aquela que é absolutamente inclusiva.
A prática contante e quotidiana do alquímico coração ardente, imperecível, que guarda o espaço do fogo interior intacto que jamais se apagará e que pode ajudar quem se perdeu a reencontrar-se.
Todos somos tremendamente humanos, que possamos abraça-lo com a integridade de receber cada fragmento e repara-lo, o melhor que podemos.
Ser pacifista é hoje em dia o maior caminho de activismo.
Paz activa nas orações, pensamentos, emoções, acções.

Agradecemos muito a tod@s os que têm apoiado.
Aos 23 círculos de oração conjunta em todo o país, às mãos e corações cujo nome desconhecemos e que estão em campo, cuidando.

O pó da foice

Nascem-me das Entranhas Vontades Fortes e estranhas: Sangrar livremente Ser a Semente De próprio Sonho Num chão sem dono. Eu se...